12 de agosto de 2017

Schumann: Lieder (Harmonia Mundi, 2017)


Incapaz de beber café sem se pôr a olhar para as borras no fundo da chávena, Robert Schumann via sinais em tudo. E na poesia, desde muito cedo, encontrou uma espécie de intimação do destino, conquanto, hoje, em retrospetiva, pareça algo imprevidente na forma em como resistiu ao impulso de compor para voz. “Oh, Clara, que felicidade em escrever música para ser cantada; não a sentia há tanto”, confessava ele à mulher que amava numa carta de fevereiro de 1840, o prodigioso Liederjahr – o ano das canções. Antecipava já o som dos sinos, pois, como se sabe, após meses de extenuante batalha legal com o pai de Clara, Friedrich Wieck, o casal viria a casar-se a 12 de setembro na véspera do 21º aniversário da virtuosa pianista; isto é, de maneira muito simbólica, quando estava a horas de atingir a maioridade perante a lei. 

Do período, primeiro acompanhado por Vladimir Ashkenazy e depois por Eric Schneider, Matthias Goerne gravou já os ciclos “Liederkreis”, Op. 24 (poemas de Heinrich Heine), “Dichterliebe”, Op. 48 (idem), “12 Gedichte”, Op. 35 (Justinus Kerner) e “Liederkreis”, Op. 39 (Joseph Eichendorff), que agora invoca através de um trio de canções de “Myrthen”, Op 25 (Heine, novamente), e de outra proveniente de “Gedichte aus Liebesfrühling”, Op. 37 (Friedrich Rückert): ‘A Flor de Lótus’, em que a passagem do dia para a noite que acompanha o verso “A lua é a sua amante” raramente alcançou a presente delicadeza, ‘Tu És Como Uma Flor’, em que o barítono se aproxima em bicos de pés dos ritardandos, e ‘A Lágrima Solitária’ e ‘O Céu Verteu Uma Lágrima’, dois casos de pura alquimia. Situados a meio de um alinhamento superiormente consagrado às melancólicas canções dos tardios Op. 89 (Wilfried von der Neun) e Op. 90 (Nikolaus Lenau), com desvios numa glacial ‘Canção Noturna’, Op. 96/1 (Goethe), e numa enganosa ‘Minha Bela Estrela!’, Op. 101/4 (Rückert), é como se, em termos dramáticos, Goerne transferisse Schumann da aurora para aquele crepúsculo do qual não mais saiu. Talvez por isso cante com a fidelidade magoada de um anjo que baixou a guarda e perdeu quem deveria proteger.

Tanzania Albinism Collective “White African Power” (Six Degrees, 2017)


Imagina-se a ansiedade de Ian Brennan à medida que o ferry se aproximava da ilha de Ukerewe, no Lago Vitória. “Muita ansiedade, mas nenhuma expectativa”, viria mais tarde a confessar, numa troca de e-mails. Em parceria com a ONG Standing Voice, preparava-se para conduzir um workshop em Composição e Escrita de Canções com voluntários procedentes da significativa comunidade albina local e, de soslaio, reparava num casal europeu que fitava a costa como que a bordo de um vaporetto ao largo de Poveglia. É uma terra estranha, Ukerewe. Não é uma colónia penal, nem é bem um lazareto, e menos ainda uma estância turística ou uma reserva, embora possua traços de tudo isso e muito mais – aliás, para aqueles que sofrem de albinismo, e que costumam ser por lá abandonados à sua sorte, pode até parecer o paraíso.

É uma condição empestada por contradições, comum a essoutras com que Brennan contactou no Camboja, no qual gravou “Khmer Rouge Survivors”, ou na Prisão de Segurança Máxima de Zomba, no Malawi, onde comandou o Zomba Prison Project, e ao mesmo tempo totalmente distinta das que já viveu. “Tínhamos despachado instrumentos para a ilha mas, ao chegarmos, reparámos que as caixas ainda estavam todas por abrir”, diz. É que, por pudor e desconfiança, os voluntários preferiam pegar numa marreta ou numa garrafa de cerveja, num prego ou numa vassoura, numa frigideira ou no arco e flecha. “Nem cantar ou dançar lhes parecia natural”, explica. Nem falar, diga-se de passagem, pois os sons nas suas laringes são os daqueles que vivem permanentemente dominados por uma força que não suportam. Daí resultam dilacerantes temas com pouco mais de trinta segundos – histórias de perseguição, violência, mutilação, violação (na Tanzânia, e não só, ainda se crê que relações sexuais com uma mulher albina podem curar a SIDA e que comer certas partes do corpo de albinos traz fortuna e saúde). E nem se supõe que estes homens e estas mulheres possam dar voz aos seus sentimentos durante mais tempo do que isso.

5 de agosto de 2017

Roscoe Mitchell “Bells for the South Side” (ECM, 2017)


Cumpriu anteontem o seu 77º aniversário, Roscoe Mitchell, e não se pode dizer que lhe faltem razões para celebrar: assim por alto, teve novas peças estreadas pela Orquestra Sinfónica Escocesa da BBC e pela Orquestra do Teatro Comunale de Bolonha, viu este extraordinário CD surgir nos escaparates e, afinal, contrariamente ao que tinha sido indicado em junho, permanecerá à frente da cadeira Darius Milhaud em Composição do Centro de Música Contemporânea da Universidade de Mills, na Califórnia, posição que um plano de reestruturação financeira havia subitamente posto em causa. Reagindo a essa ameaça, tinha-se mantido algo fleumático: “Preocupam-me mais os meus dez colegas que se encontram na mesma situação que eu”, declarava ao “The New York Times”. “Não me afeta muito. Vou continuar como até aqui. Uma dura lição que há muito aprendi é que mais vale dar a volta a uma parede do que ir direitinho contra ela”, dizia desprendidamente ao “East Bay Express”. “Neste momento, se há coisa que me interessa fazer é aprender”, referia à estação de rádio “KQED”. Trata-se, no seu todo, de um conjunto de depoimentos muito revelador e que espelha a generosidade, a empatia e a curiosidade de quem o proferiu, assim como aquele distinto traço de carácter que encontrou na independência uma saída para a intolerância.

Cinquenta anos de criação musical – desde o embrionário “Sound”, de 1966 – descrevem-no na perfeição. E, hoje, escutar um dos seus discos, como este, permite aceder a esse ponto, raro, delicado e em contínua negociação, para o qual converge o sentido da vida, na sua expressão mais emancipada e ao mesmo tempo sensível à necessidade do outro, solitária e solidária. “Bells for the South Side” carrega algum desse contraste – e logo pelo título, que tanto pode evocar o luto causado pelo desaparecimento daquelas figuras agremiadas na zona sul de Chicago com que Mitchell formou os Art Ensemble (Lester Bowie, Malachi Favors) como o júbilo que esse mesmo encontro originou. Seja como for, está muito cheia da sua história, esta gravação captada no Museu de Arte Contemporânea da cidade e que tem como base o seu trabalho em trio (com James Fei e William Winant, Hugh Ragin e Tyshawn Sorey, Craig Taborn e Kikanju Baku e Jaribu Shahid e Tani Tabbal) e também o dos seus trios somados. Conforme cantou Raul Seixas em ‘Por Quem os Sinos Dobram”: “Nunca se vence uma guerra lutando sozinho”.

Agenda: Jazz em Agosto II



A dupla assina como EITR, o que aponta genericamente para a mitologia nórdica e especificamente para aquela líquida substância presente nas crenças da Escandinávia pré-cristã, a partir da qual se cria ou destrói a vida, de efeito deletério no seu estado puro, bastas vezes associada à peçonha das serpentes. Ouça-se o sugestivo “Trees Have Cancer Too”, um disco lançado em 2013 numa edição limitada a 150 unidades, e dir-se-ia que Pedro Sousa e Pedro Lopes (na foto) teriam caído em pequenos no caldeirão do eitr. Nomeadamente porque – e é disso que se trata – se dedicam a uma expressiva transformação das funções vitais da música, aqui em iterações primordiais, capaz de trazer à memória a autoridade da negação que por vezes há na arte, conquanto não se coíba de engatar a embraiagem da circunstância. Estão respetivamente ao saxofone e no gira-discos (embora Lopes não recorra a fonogramas propriamente ditos) e os seus sinais estão em trânsito permanente, a testar aproximações ao curto-circuito, o colapso de um sistema como crescimento desse sistema. São hoje esperados às 18h30 no Auditório 2 da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, no âmbito do Jazz em Agosto, este ano consagrado concetualmente a um “campo vasto de contaminações transformadoras” mais ou menos endógenas. Impulso que terá estado presente na origem do grupo há 30 anos constituído por Jim Black, Chris Speed, Andrew D’Angelo e Kurt Rosenwinkel (Human Feel), e que às 21h30 subirá ao Anfiteatro ao Ar Livre, para não falar, já, na formação do quarteto High Risk, por Dave Douglas, em que a sua trompete é como o narrador que anda pelo cosmos à cata de sentimento num filme de ficção-científica – encerra amanhã o festival às 21h30.

29 de julho de 2017

Agenda: Jazz em Agosto


Põe-se a tocar “Incidentals”, o novo disco de Tim Berne com os Snakeoil, e parece que sai nevoeiro das colunas. O tema chama-se ‘Hora Feliz’ e a sua introdução poderia descrever a emoção dos membros da frota comandada por Pedro Álvares Cabral quando, ao longe, se anunciaram os contornos daquela aparição cintada pela neblina dos trópicos que o capitão batizou como Monte Pascoal. Muito do que aí se escuta se deve à guitarra de David Torn, uma presença algo messiânica na vida de Berne desde que há coisa de 20 anos se cruzaram. De então para cá, Berne recorre a Torn como, numa cidade, os responsáveis pelo ordenamento lançam mão da arquitetura paisagista. São alguns dos aspectos orgânicos que Sun of Goldfinger (Berne no saxofone alto, Torn à guitarra elétrica e Ches Smith na bateria) conjugará hoje, pelas 21h30, no Anfiteatro ao Ar Livre da Fundação Calouste Gulbenkian. Como é óbvio, a presença do trio na edição deste ano do festival Jazz em Agosto justifica-se pelo facto de pôr em cena problemáticas da sua condição: como desafiar convenções sem ignorar valores patrimoniais? Ou, como devolver ao corpo aquilo que dá mostras de viver exclusivamente no pensamento? São questões que também inquietam Steve Lehman, que, antes, pelas 18h30, na Nave da Coleção Moderna do Museu Gulbenkian, tratará de expandir a noção do solo através de programação rítmica e eletrónica. Considerações semelhantes terão conduzido as pesquisas do guitarrista Julien Desprez, que se apresentará amanhã, no Auditório 2, pelas 18h30, numa atuação imprópria para epilépticos. Às 21h30 subirá ao Anfiteatro ao Ar Livre enquanto um dos oito elementos da Coax Orchestra, formação dada a vigorosos choques no sistema nervoso, a distúrbios de toda a espécie e constantes mudanças de humor. Também num domínio praticamente patológico opera o dueto de Peter Brötzmann e Heather Leigh – o seu disco de maio chama-se “Sex Tape” e não deve andar longe do que se ouvirá segunda-feira à noite, num momento imperdível. O festival prossegue terça, com o ‘quinteto escandinavo’ de Susana Santos Silva, quarta com o quarteto Sudo (Zíngaro, Léandre, Tramontana, Lovens) e quinta com os Starlite Motel, antes dos Fictive Five, de Larry Ochs, darem esta primeira semana por encerrada, noutro concerto obrigatório.